Gordofobia na pandemia mata mais do que a Covid-19 – Por Malu Jimenez

Quem se aproveita do discurso da gordofobia?

Malu Jimenez com a camiseta do seu projeto Lute Como uma Gorda

Por Malu Jimenez

A pandemia do coronavírus veio definitivamente para mostrar quem são os verdadeiros “grupos de risco” em qualquer pandemia, desastre ou situação calamitosa em que a população dependa da assistência do Estado.

Quem são os que mais são afetados sempre? Quem são os que nunca são atendidos dignamente? Quem são os que nunca podem parar de trabalhar? Quem são os que não podem ficar em quarentena? Quem são os que passam fome? Quem são os indigentes? Dissidentes?

Sinto muito em lhes informar que o maior grupo de risco dessa pandemia são os mais pobres, os que já não tinham assistência médica, os que vivem amontoados, que sobrevivem de subempregos, os que não têm documentos de identificação, os mesmos que estão morrendo aos montes e não estão entrando nas estatísticas… são eles!

sistema capitalista -  Divulgação
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Há, em meio a tantas outras, mais uma vergonha para nosso país: o tempo e a audiência enorme na televisão brasileira estão sendo usados para perseguir e amedrontar uma grande parcela da população, as pessoas gordas, as quais já estão desconfortáveis faz algum tempo.

Vemos em reportagens um forte apoio à gordofobia, que já não é pouca neste tempo de pandemia. O que a mídia brasileira ganha com isso? Aliás, esse tipo de reportagem ajuda a quem? Ou o quê?

Isso é de uma irresponsabilidade e falta de empatia gigantesca. Pensem nas pessoas gordas e seus familiares assistindo a essas reportagens. Pensem que somos mais da metade da população e ainda não temos aparelhos, macas e equipamentos em que caibam nossos corpos grandes no sistema de saúde brasileiro. Por que não falam disso?

Quem ganha com esse tipo de reportagem? Quem e o que está por trás desse discurso da obesidade?

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Pensem…

Os únicos que ganham com esse tipo de discurso sensacionalista que coloca todo corpo gordo como doente são os impérios do emagrecimento, da beleza e da saúde.

Sugiro que reflitam sobre isso, sejam empáticos e pensem nas milhares de pessoas gordas que como vocês estão sob pressão de uma pandemia e, junto a tudo isso, ainda precisam ficar se defendendo — aliás, como sempre — de uma mídia sensacionalista e de um sistema de saúde que não protege as pessoas, e, pelo contrário, persegue, já que o que se considera um corpo saudável na nossa sociedade capitalista nem sempre é verdadeiro.

A saúde, como tudo por aqui, é um produto.  Sim, meus queridos leitores, um produto que se vende e com o qual se ganha muitoooo dinheiro. Nas minhas pesquisas de doutorado, por exemplo, foi possível observar uma associação  da beleza  a uma categoria social, ou seja, pessoas que hoje são consideradas belas: brancas, magras e jovens são vendidas como saudáveis, e todo o restante, que, aliás, em nosso país é a maioria, é considerado doente.

 Proponho, portanto, que leiam mais e pesquisem mais. Se ainda não deu para perceber como a mídia e as instituições sociais manipulam nossos saberes, já está na hora; nosso país segue ladeira abaixo, e essa falta de entendimento de nossa população é um dos fatores mais responsáveis por tudo isso que estamos vivendo.

Obs.: Esse texto é uma continuação do que já tinha escrito para o @margens sobre o programa  Fantástico em que Drauzio Varella falou sobre obesidade.

Quer entender mais sobre gordofobia, pressão estética, mercado da beleza e da saúde? Clique aqui para acessar o nosso blog e aqui para ver nossos cursos e vem estudar com a gente!

Para consultar:

JIMENEZ, Maria Luisa.  O que está por trás do discurso da obesidade do Dr. Drauzio Varella no Fantástico?

JIMENEZ-JIMENEZ, Maria Luisa. lute como uma gorda: gordofobia, resistências e ativismos. 2020. Doutorado (Programa de Pós Graduação em Estudos de Cultura Contemporânea – ECCO) – Faculdade de Comunicação e Artes da Universidade Federal de Mato Grosso – UFMT. Cuiabá, MT, Brasil.

JIMENEZ, Maria Luisa. Gordofobia médica: a reprodução do estigma social, 2018. (Blog/Facebook).

JIMENEZ, Maria Luisa. Por que a beleza é tão importante para as mulheres? 2018. (Blog/Facebook).

Malu Jimenez, em Chapada dos Guimarães

MALU JIMENEZ
Malu Jimenez é gorda, filósofa feminista, doutora em Gordofobia no Programa de Pós Graduação em Estudos de Cultura Contemporânea na UFMT, fundadora do grupo de estudos transdisciplinares do corpo gordo no Brasil, idealizadora do projeto LUTE COMO UMA GORDA, coordena as redes sociais estudos do corpo gordo feminino, faz parte do coletivo feminista GORDAS XÔMANAS em Cuiabá, Mato Grosso e é colaboradora escritora no Todas Fridas e no Margens. Faz o programa PESQUISA GORDA no youtube e podcast.

Collab
Este texto resulta da parceria entre mulheres gordas: pensado e escrito por Malu Jimenez e revisado por Gaia Revisa (gaiarevisa@gmail.com).

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