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Artista traduz hip hop e pop para Libras na web: “música vai além do ouvir”

Anne Magalhães – Foto Universia

Anne Magalhães, 28, parece estar dançando músicas de artistas como Emicida, Karol Conká e Iza nos vídeos em que publica no Instagram. Deficientes auditivos sabem, no entanto, que ela está cantando. A jovem usa as redes sociais para traduzir hip hop, rap e pop para Libras (Língua Brasileira de Sinais). “Música vai além do ouvir. Ela tem a ver com reverberação, energia. Mas também comunica muita coisa de uma maneira sensível”, fala a Universa.

Educadora e artista, Anne aprendeu Libras por curiosidade. “Tinha um colega de colégio que era deficiente auditivo e ele nos ensinou alguns sinais. Depois, fui trabalhar em uma escola para surdos, onde aprendi mais com as educadoras e crianças”, narra. Segundo ela, tudo aconteceu naturalmente. “Língua e linguagem sempre estiveram em mim.”

 

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Em suas redes sociais, a artista já interpretou canções como “Blueman”, “Pesadão”, “Lalá” e “Gueto”. Na Virada Cultural de São Paulo (SP), que aconteceu em junho, ela fez a tradução ao vivo do show de Karol Conká. No entanto, antes disso, Anne já fazia pesquisas com o poeta Bruno Ramos, que é surdo de nascença. “A gente fazia essas interpretações para se divertir”, diz. Ambos trabalhavam no CCBB (Centro Cultural Banco do Brasil), no centro de São Paulo (SP). No espaço, eram realizadas algumas apresentações de música. “Bruno começou a ficar curioso sobre o que os artistas cantavam e eu traduzia para ele. Decidimos, então, fazer isso com todos os musicais”, narra. Ele também gravava vídeos traduzindo as músicas para os amigos surdos. “Faço isso há três anos, mas nunca publicava. Até janeiro, quando decidi colocar também no meu Instagram.”

A escolha por canções do hip hop é, de acordo com ela, uma questão de gosto –dela e da comunidade surda. “Vou no fluxo. São músicas que eu já ouço no meu dia a dia, mas esse gênero também tem uma entrada entre os deficientes auditivos porque as canções costumam ter batidas bem fortes e uma reverberação que funciona para eles”, fala. Em festas para surdos, eles literalmente sentem a música através dos graves que “batem” no peito e pelo corpo. Como o hip hop e o rap têm graves marcados, os surdos os sentem melhor. Mas não é só isso. “A cena hip hop tem um apelo visual muito forte, com o grafite e com os looks, e isso também os atrai”, afirma.

 

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Mesmo que se deixe levar pelo que está ouvindo, Anne também tem o cuidado de escolher canções que sejam “visuais”. “A música tem que trabalhar com cenas. Vou sentindo a viabilidade de interpretação”, afirma. Com uma canção escolhida, ela pesquisa, em entrevistas e vídeos do artista, o que ele quis dizer com a letra. “Tento passar exatamente a subjetividade que o cantor queria dizer”, fala. Depois disso, bate com os amigos surdos se os sinais que está usando fazem sentido. “Eles me ajudam a encontrar a melhor expressão para traduzir o que diz a canção, para me expressar com eficiência.”

Em sua caixa de mensagem, a tradutora tem recebido um retorno bastante positivo da comunidade surda. “A maioria das pessoas tem gostado muito, eles têm se divertido muito com os vídeos.” Seus seguidores estariam dizendo que o conteúdo pode aproximar ouvintes e não-ouvintes. “Música é um ponto de encontro, troca de informações. Ela é uma forma de unir pessoas que pensam e vivem coisas diferentes”, diz. Uma vez, um amigo que não escuta contou que um colega, que não sabia falar Libras, decorou um sinal por causa de um vídeo de Anne e foi mostrar para ele. Isso a deixou profundamente feliz. “É uma justificativa para todo mundo se entender melhor.”

Fonte: Universia