Diário de intercambista: a decisão de partir – Por Sandra Rocha

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Por Sandra Rocha

A DECISÃO

Sempre fui muito sonhadora, do tipo de me entregar naquilo que acredito,  e de uns tempos pra cá percebi minha vida monótona, sem cor, sem vida. A sensação que eu tinha é que estava parada, estagnada. Vi que não estava vivendo e sim sobrevivendo, e isso é muito sério, estava levando a minha vida no automático. Foi então que vi que precisava fazer algo. Afinal, na minha vida faltava emoção, frio na barriga, aprender algo novo…  Aí fazendo faxina em casa vi um projeto engavetado, o de falar inglês fluente.

Nossa, fazia anos que tinha abandonado o sonho de fazer intercâmbio.  Havia cogitado de morar fora do país e já tinha até feito algumas cotações e tal, mas por algum motivo, nunca levava a ideia adiante.  Após terminar um relacionamento fiquei meio sem chão, foi ali que me observei e percebi quantas sonhos abri mão em minha vida vivendo o sonho dos outros e deixando os meus de lado. Não estou culpando ninguém, não. E sim a mim mesma por ter feito isso comigo. Eu precisava fazer algo por mim, ter o comando da minha vida, fazer minhas próprias escolhas e, claro,  ser feliz.

A minha palavra de ordem era RECOMEÇAR, isso mesmo, do zero.  Juntei minhas  economias e comecei a dar início a realização do sonho. Visitei algumas agências e fechei o pacote com escola, seguro saúde e comprei as passagens aéreas. Caramba, agora a coisa tinha ficado séria de verdade.  Sou ariana e como amo desafios, sou muito impulsiva e quando resolvo fazer algo, vou até o fim. Senti  adrenalina de começar algo novo. Isso me impulsionou a realizar meu sonho aos 34 anos de idade. Nunca me achei velha para isso, pelo contrário, tem pessoas de várias idades fazendo o mesmo, já vi gente de 80 anos fazendo intercâmbio e acho isso o máximo. Nunca é tarde para realizar um sonho.

Preparei-me para essa mudança, afinal tinha uma vida estável, um emprego muito bom, carro, morava com minha irmã e um gatinho de estimação e não foi fácil abrir mão desse conforto, mas precisava. Em menos de  cinco  meses minha vida mudou completamente. Hoje moro na Irlanda há dois meses.

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CHEGADA A DUBLIN

Cheguei a Dublin no dia 1º de abril deste ano. Nunca tinha viajado para o exterior e quando pisei o pé na Ilha Esmeralda fiquei radiante. O primeiro mês foi uma espécie de lua de mel, fiquei encantada com tudo. Deparei-me com castelos lindíssimos, coisas que tinha visto apenas na televisão ou em filmes. A sensação que tinha é que estava num cenário da  Game Of Thrones. Vi muitas pessoas ruivas parecendo atores da minha série preferida e as crianças, meu Deus como são lindas, parecem bonecas.

Aqui a cultura é muito valorizada. Nas ruas, diariamente tem apresentação de artistas talentosíssimos cantando, dançando, enfim, mostrando sua arte. Ah, não tem como falar da Irlanda sem citar os pubs. Tem de todos estilos, em todas as esquinas, com músicas ao vivo e os mais variados tipos de cerveja.  Mas esse líquido aqui é muito precioso no sabor e no preço, se compararmos com o valor cobrado no Brasil. Aqui se toma a pint (lê-se páint), que é uma  tulipa de cerveja de 500 ml. Mas, é preciso tomar cuidado para não  se empolgar muito, pois pode ficar caro e você pode sair bêbado.

Aqui também tem muitos museus, bibliotecas e jardins. Ah, como não falar nos jardins, eles são um espetáculo à parte. Como são bem cuidados, nunca vi tulipas tão lindas em toda minha vida. Mas, nem tudo são flores aqui. Os espinhos também fazem parte do dia a dia dos intercambistas. Mas, nem por isso,  ofusca a beleza.  O meu dia a dia é bem puxado.

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ESCOLA

Não domino o inglês – estudo todos os dias na escola. São quatro horas de aula diariamente e 30 minutos de intervalo. Entro às 9h e saio às 13h30. Cheguei aqui falando que nem índio e com vergonha de bater papo pela limitação do vocabulário. Mas, aos poucos você vai deixando a vergonha de lado e entende que está aqui justamente para aprender e errar faz parte do processo. Percebi que além disso, tinha outro agravante, a pronúncia. Dava ênfase na sílaba errada, ainda peno com isso.

Outra coisa que vale salientar, a maioria das pessoas acha que ao morar na Europa, o inglês brota do dia pra noite. Ledo engano, tudo é um processo. Uns aprendem mais rápidos e outros nem tanto. Cada um tem seu tempo e temos que respeitar as diferenças. É um processo, afinal, não é nossa língua pátria.  Aprender inglês não tem fórmula mágica. É preciso dedicação!

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TRANSPORTE

Aqui não tenho carro. E como moro longe do centro, uso o transporte público, que é muito bom por sinal.  Os pontos têm tipo um placar eletrônico avisando quanto tempo falta para o coletivo chegar . Além disso, tem o aplicativo no celular (Dublinbus) que você consegue saber a linha certa e o horário para pegar.

MORADIA

Aqui na Irlanda acomodação é um problema sério. Os preços são altos e você terá que morar com muitas pessoas. Moro numa casa grande com  10 pessoas, sendo três brasileiros, cinco croatas e dois irish (irlandeses).   Divido o quarto com mais duas pessoas. Não é fácil, a gente vai aprendendo a ceder aqui e ali para poder viver em harmônia. Para se ter uma ideia como os perrengues são comuns por conta da diferença de hábito,  teve uma moradora nunca tinha limpado a casa, mesmo depois de 2 meses morando conosco. Depois de uma briga feia, fizemos uma lista com nomes e dias para cada um fazer a limpeza e  por enquanto está dando certo.

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CONVIVÊNCIA

Aprender o idioma croata está fora de cogitação, mas a amizade é muito bacana. Os croatas corrigem quando falo errado e me ajudam muito no idioma. Além disso, a gente faz comida brasileira para todos e eles também retribuem fazendo as iguarias de seus países. É uma troca rica e saborosa.

CLIMA

O clima é muito diferente de Cuiabá. Aqui sempre está frio, mas agora que o verão  chegou, o sol tem dado o ar da graça.  Acho interessante que os dias pareçam estar mais longos, isso porque o sol se põe por volta das  22h, o que é ótimo  porque dá para passear, ver os amigos, ficar no parque – aqui tem lugares incríveis.

No inverno, acontece o contrário, amanhece lá pelas 10h da manhã e  anoitece por volta das 16h. O dia fica mais curto e os termômetros ficam negativos.

BARRIGA

Senti muita diferença aqui no sabor da água. Achei salgada, pois o teor de sódio é muito alto. O interessante é o barulho que a nossa barriga faz, parece que tem monstros. Isso acontece com a maioria dos intercambistas. Na sala de aula, por exemplo, parece competição, as barrigas começam a fazer barulho e a gente morre de rir. Dizem que depois de uns três meses o barulho pára. Vamos ver! Até lá a barriga continua com trilha sonora parecendo estar com fome.

SAUDADE

Ah, não tem como não falar dela, a saudade. Tem dias que ela aperta e a lágrimas são inevitáveis, por sorte, existe a tecnologia o que ajuda a encurtar a distância e acalmar o coração. E por falar em saudade, tem também os new friends que vem para Irlanda fazer intercâmbio de um, três ou seis meses e quando vão embora a gente também sofre com a partida, afinal a gente se apega.

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 SENSAÇÃO

Quando a gente faz um intercâmbio percebe que tudo que é vivido é muito intenso. Os valores mudam. Hoje, invés de comprar uma roupa cara da moda prefiro viajar, conhecer países, tomar um vinho com amigos e por aí vai… Os valores mudam muito. Procuro sempre falar do meu amor para minha família, meu porto seguro.

Se me perguntar, vale a pena fazer um intercâmbio? Sem sombra de dúvida respondo que sim. Tenho a oportunidade de conversar com pessoas de vários lugares do mundo, aprendo novas culturas,  idiomas e tenho a chance de conhecer outros países.

Acho que hoje uma das grandes lições que aprendi foi de ter que deixar o orgulho de lado, descer do pedestal. Aqui não sou a Sandra jornalista, sou a estudante de inglês. Vejo o quão vulnerável sou num outro país onde não domino o idioma. Ter brasileiros aqui faz toda a diferença, porque um acaba ajudando o outro e  aqui todos estamos no mesmo barco, com sonhos em comum e vivendo a mesma jornada.

Acho importante destacar que intercâmbio não é pra qualquer um. Já vi muitos brasileiros retornarem para o nosso país porque não se adaptaram ao frio, as dificuldades, as casas lotadas ou porque acharam muito difícil conseguir emprego. É importante vir pra cá com um foco, conheço histórias interessantíssimas de quem também passou por muitas dificuldades e que hoje é case de sucesso por aqui.  Acredito que tudo na vida depende do seu ponto de vista, se  você enxerga o copo cheio ou vazio.

Sandra Rocha é jornalista há 13 anos. Trabalhou como repórter na TV Record, TV Rondon e no Tribunal de Justiça. Trabalhou como assessora de Imprensa da Fiemt e na Assembleia Legislativa e hoje mora em Dublin, na Irlanda. Quer falar direto com a Sandra? Mande suas dúvidas para ela, através do e-mail  sandrarochasantana@hotmail.com.

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